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Na tradição judaicaAs águas na tradição judaicaEvaristo Eduardo de Miranda1
Para a tradição judaica e cristã, muito coisa surgiu e pode surgir das águas: um peixe, uma baleia, um batizado, um rumor, um Moisés, uma caravela, um alísio, uma esponja, um tzadik, uma âncora, uma rede e até moedas de ouro e prata. Dracmas e didracmas evangélicos, sorrindo dos cobradores de impostos na boca de um peixe pescado por Pedro (Mt 17, 12-27), costumam surgir milagrosamente das águas. A simbologia das águas da tradição judaica foi sendo ofuscada, congelada e até evaporada, ao longo de dois mil anos, pela leitura sob a ótica cristã do Primeiro Testamento2, do Tanah3. Os mistérios batismais e o Cristo pascal, autodenominado água viva e de cujo flanco brotaram sangue e água, foram os principais vetores de uma construção litúrgica, ritual e simbólica da experiência eclesial face às águas bíblicas. Os mistérios noáticos, pascais e grande parte dos encontros hídricos do Primeiro Testamento, foram e são objetos de novas e interessantes re-leituras cristãs, ao tempo em que a originalidade do hebraico e da tradição judaica foi sendo apagada ou pior ainda, imaginada como preservada, como por mumificação mutiladora. As águas da língua hebraica e da tradição judaica alimentam mais de 4000 anos de seiva criadora, circulando desde as raízes religiosas, percorrendo como Verbo do Alto, como Grandes Letras, os ramos da diáspora e do exílio, perfumando as chagas e as flores mais doloridas da história dos hebreus, até dar seus mais belos frutos na poesia, na liturgia, na mística, na tsedaká4 e na vida social e cultural dos judeus. Nisso foi decisivo, o verbo crucificado no papel, as pequenas letras, gravadas nas folhas alimentadoras da Torá, do Talmude5, do Midraxe6e de tantos outros escritos do judaísmo. O antisemitismo, historicamente, também impediu muitos cristãos de ver e desfrutar desse jardim aquático do Éden, mas nem tudo foi assim na Igreja católica. A Companhia de Jesus, por exemplo, manteve uma atitude positiva com relação ao povo hebreu, desde os corajosos posicionamentos de seu fundador, Santo Inácio de Loyola. Diante do início de investigações sobre a pureza do sangue dos cristãos-novos, indagado sobre a existência de sangue judeu entre os jesuítas, Santo Inácio de Loyola ficaria muito honrado se em suas veias corresse um pouco do sangue de Maria, a mãe de Jesus. "Tenia San Ignácio de Loyola, respecto a los judíos y los conversos, ideas que estaban en contradicción con las de muchos prelados españoles de su época y más en armonía con las de Alonso de Cartagena, fray Alonso de Oropesa y los defensores de aquel linaje, cien años antes. Así, San Ignacio mantuvo una postura hostil a los estatutos de limpieza y a todo lo que éstos implicaban en el mismo momento de su máxima expansión. Repetidas veces dijo que él hubiera considerado gracia especial el venir de linaje de judíos".7 No Brasil, o padre Antonio Vieira8 foi outro exemplo dessa atitude ecumênica e tolerante. Ele muito trabalhou pela admissão no reino de Portugal dos judeus foragidos e pela moderação das práticas da inquisição. Vieira sabia da importância do convívio pacífico e respeitoso com os judeus e de sua contribuição social e econômica. Um trecho de uma das cartas do padre Vieira, endereçada aos judeus de Ruão na Holanda, datada de 20 de abril de 1646, ilustra essa postura jesuítica: "Senhores meus. Escrevo a todos VV. Mercês no mesmo papel, porque não é justo faça divisões a pena onde não reconhece divisão o coração. Foi tão igual a grande mercê que VV. Mercês me fizeram, e tão igual o afeto que em todos experimentei que, quando particularmente o considero, o que devo a cada um me parece maior, e assim não quero fiar a significação do meu agradecimento a diversas cartas, porque a diferença das palavras não argüa desigualdade na obrigação.9" Nos últimos cinqüenta anos, o Magistério da Igreja tem sido muito claro no sentido da necessária fraternidade entre cristãos e judeus e sobre a riqueza a explorar nas origens judaicas do cristianismo. As águas podem ser fator de união, para quem decide navegá-las e passar para a outra margem (Mt 8,18; Lc 8,18) ou de separação, para quem fica imobilizado na praia. Este artigo aborda o tema das águas, inspirado nas raízes judaicas do cristianismo e nas recomendações do documento papal "Memória e Reconciliação"10. Ainda hoje, para a mística judaica e cristã, o encontro com as águas está destinado, não a saciar, mas a ampliar a sede do Infinito, do Insondável, do Uno.
1 Doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite (mir@cnpm.embrapa.br). 2 A expressão Primeiro Testamento designa o que impropriamente chama-se de Antigo Testamento. O Segundo Testamento designa o Novo Testamento. Os dois Testamentos não são velhos, nem novos. São dois Testamentos do judaísmo e do cristianismo. 3 Acrônimo formado pelas iniciais dos três principais conjuntos de livros da Bíblia hebraica: a Torá (pentateuco), os neviim (profetas) e os ketuvim (escritos). O Tanah é composto de 24 livros: cinco na Torá, oito nos profetas (os doze profetas menores são contados como um só livro) e onze hagiógrafos. 4 De forma simples, esta palavra pode ser traduzida como caridade. 5 Do hebraico Talmud, estudo, ensino. Essa enciclopédia judaica reúne a doutrina e jurisprudência da lei mosaica, com explicações dos textos jurídicos da Torá (Pentateuco) e a Mishná, a jurisprudência elaborada pelos comentadores e sábios judeus entre os séculos III e VI. 6 Eliane Ketterer & Michel Remaud. O Midraxe. Paulus. S.Paulo. 1996. 7 Julio Caro Baroja. Los judios en la España moderna y contemporanea. Madrid, 1961. 8 O padre Antonio Vieira (1608-1697), "imperador da língua portuguesa", pregador jesuíta, nascido em Lisboa, veio para o Brasil em 1615. Autor de alguns dos mais belos sermões em língua portuguesa, teve grande ascendência sobre o rei João IV de Portugal. Em missões diplomáticas prestou relevantes serviços a Portugal, quando das invasões holandesas no Brasil. Aqui, estabeleceu núcleos missionários na Amazônia e conseguiu da Corte a expedição de lei contra a escravatura indígena no Maranhão. Por várias vezes defendeu os judeu. Foi processado pela Inquisição em Portugal, preso em 1665. Em 1681 retornou à Bahia onde veio a falecer, após novo período de atividade. 9 Pe. Antonio Vieira s.j. Cartas do Brasil. Hedra, São Paulo, 2003. 10 Memória e Reconciliação – A Igreja e as culpas do passado. Loyola. S. Paulo. 2000.
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