![]() Água na natureza, na vida e no coração dos homens |
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Na tradição judaicaDuas águas, faces a facesEvaristo Eduardo de Miranda1 Para a tradição mística judaica existe na origem de tudo duas águas: as de baixo e as de cima. Viviam juntas, integradas, unas, placidamente. No tohu-et-bohu13, na desordem e no vazio, no assombro e na admiração (Gn 1,2). Em hebraico, tohu (tav-hei-vav)14, segundo Rashi15, traduz o assombro e admiração do homem quando fica surpreso e confuso pelo seu vazio, pelo vazio do mundo16. O assombro do vazio. Já bohu (beit-hei-vav), é uma expressão hebraica de vazio e desolação. Essas expressões estão no início do relato bíblico da criação (beit), no livro do Gênesis, o Bereshit. Para a tradição judaica, a palavra bereshit contém toda a Torá! O sopro de Deus planava eroticamente sobre as faces das águas, alpani hamaim, diz textualmente o hebraico da Torá (Gn 1,2), al (ain-lamed) pani (pei-nun-iud) hamaim (hei-mem-iud-maim). Faces? Como as águas, as faces também são sempre plural, em hebraico. E as faces bíblicas (panim) não são apenas fachadas, metades de um rosto, caras exteriores, caras metade ou aparências superiores ou inferiores. São faces internas, viscerais, intestinas17. A palavra "faces" dá origem, em hebraico, ao verbo voltar-se, tornar-se, dirigir o olhar ou a consideração para algo, o equivalente em português de facear. Como na expressão divina dirigida a Adão, Adam: volta-te para o pó ou ao pó voltarás. Considere, dirige teu olhar, tua inteligência para o fato: és pó, terra, adamá18. Consideres que és pó! Uma reflexão muito distante do tom de sepultura das leituras superficiais dessa passagem do Bereshit (Gn 3,19). Essa consideração evoca a contemplação, a inteligência da fé e a sacralidade do Humano e da Terra. O face a face divino - humano é sacralizante. As faces hebraicas, duplas e plurais, sinais de alteridade relacional, são como folhas de janelas azuis numa branca e reluzente casinha do sertão brasileiro. Elas unem interior e exterior, abrem para os dois lados, como as verdadeiras janelas. Para o úmido e para o seco, para a terra e para a água. Como o alfabeto hebraico onde a cada letra corresponde um valor numérico. As letras hebraicas são construídas a partir de três realidades geométricas: o ponto, a linha e o plano. Por extenso, iud escreve-se em hebraico (iud-vav-dalet). O iud é um ponto, vav uma linha e dalet um plano. A palavra iud, em suas letras, iud-vav-dalet, se desdobra em ponto-linha-plano. A palavra guematria, tão cara à cabalá19, vem do grego geometria. Existe uma leitura, uma visão geométrica das letras hebraicas, anterior mesmo ao sentido das equivalências numéricas do alfabeto. Existem muitos segredos nas letras hebraicas emersas das águas e das tintas dos escribas. Eles escapam completamente das traduções e dos tradutores. O espelhismo dual e aquático aparece na própria palavra maim (mem-iud-mem). Ela se escreve com três letras, com um mem de cada lado do iud. Da direita para a esquerda e da esquerda para direita pode-se ler ma e mi. Em hebraico, ma e mi correspondem aos pronomes interrogativos "o quê?" e "quem?". No centro, matriciada como num útero, está a letra iud. A letra mem se apresenta sob duas formas no alfabeto hebraico, sob duas geometrias. As duas grafias do mem20 são um símbolo da matrizes das águas primordiais, uma aberta e outra fechada. As águas, como a palavra maim, contém um iud no coração de seu segredo. O iud, como um grão de mostarda, é a menor das letras do alfabeto hebraico. As energias aquáticas são inseparáveis da potência do iud, dessa semente, de onde elas germinam. As águas primordiais e matriciadoras são reveladas na Torá, antes mesmo do dia Um, antes que o Verbo de Deus tenha começado a "dizer". Ao planar sobre águas, o Espírito, Sopro Divino, Ruah HaKodesh, as preenchia de sua potência paterna e as cobria como mãe, para delas fazer surgir toda a Criação: o arquétipo Pai-Mãe é um princípio de Unidade. Desde o "dia segundo" manifesta-se o princípio da dualidade, da separação das águas, em águas de cima e de baixo, chamadas de mi e ma pela tradição oral.
1 Doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite (mir@cnpm.embrapa.br). 13 Expressão hebraica do Gn 1,2 traduzida em geral como "desordem e deserto", " deserto e vazio"... 14 Para um melhor entendimento da grafia das palavras hebraicas, ver o alfabeto hebraico no anexo 1. 15 Rabi Shlomo ben Itzjak, mais conhecido por suas iniciais como RASHI, é considerado o mais ilustre e popular dos comentaristas de la Torá e do Talmud. Sua influência foi decisiva na continuidade da cultura judaica durante o século XI. 16 Chumash, com comentários de Rashi. Trejger, São Paulo, 1993. 17 Intestino, pnimi (pei-nun-iud-mem-iud). 18 Adamá, em hebraico terreno, gleba ou ainda terra vermelha; adôm, vermelho; dam, sangue; Adam, o primeiro humano, significa etimologicamente "humano vermelho" ou o terroso arruivado. No Oriente, as argilas mais férteis e plásticas são as vermelhas. Homem e húmus ou terreno e terroso contém a mesma relação lingüística que Adam e adamá. 19 O Verbo Celeste, nas sagradas escrituras, é verbo crucificado no papel. Para a mística da cabalá existe uma energia semântica, um simbolismo espiritual associado à grafia de cada letra hebraica. A palavra cabalá vem do hebraico qabale, do verbo qabel, receber. A sabedoria da cabalá dirige-se ao interior do homem, ao seu desejo e vontade de receber a Plenitude Infinita, a Luz, Kadósh Baruh Hú, o Santo Criador, o Incriado. 20 Em hebraico existem duas grafias para a letra mem: uma para quando a letra encontra-se no início ou no meio de uma palavra e outra quando a letra ocupa a aposição final, o mem final, assemelhada a um quadrado.
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