Água na natureza, na vida e no coração dos homens

Na tradição judaica

Um humano de águas, terra e letras

Evaristo Eduardo de Miranda1

 

A letra mem enquadra em hebraico a palavra águas mas indica também a origem, a proveniência, mi em hebraico. Por exemplo, para dizer: "eu sou do Brasil", diz-se em hebraico: ani miBrasil ou miIsrael ou miLublin. Uma palavra hebraica e um lugar, oposto e antagônico ao das águas, é o deserto. A palavra deserto, em todo o Tanah, evoca realidades históricas, experiências divinas, campos de revelação e uma grande densidade espiritual. Em hebraico, a ausência das águas, o deserto, midbar, significa textualmente "da Palavra", miDavar, proveniência e origem da palavra, da Torá, da Revelação.

Mi e ma, "quem?" e "o quê?". "Quem" é Deus? "Quem" é Elohim (alef-lamed-he-iud-mem)? Ao dividir-se essa palavra em dois tem-se uma primeira resposta. Ele é "Aquele", eile, (alef-lamed-he) que está nas alturas (mimem-iud). Ele também fez "o quê" (mamem-he) em baixo: Adão, adam (alef-dalet-mem). Os místicos do judaísmo contemplam na palavra Elohim (alef-lamed-he-iud-mem) o "Homem Superior, das Alturas" e em Adam (alef-dalet-mem), o "homem inferior, de baixo".

Os dois nomes, Elohim e Adam, estão contidos pelas mesmas duas letras alef (no início) e mem (no final). Essas duas letras evocam em hebraico a palavra mãe, em (alef-mem). No Nome, Elohim, Deus é Mãe, matriz e carrega em seu seio as três letras iud-he-lamed, cujo valor numérico total é 45 (30+5+10), o mesmo de Adam (1+4+40), segundo o valor semântico das letras do alfabeto hebraico21. Sobre isso, muito refletiu a mística judaica.

Essas três letras, lamed-he-iud, como um coração da palavra Deus, expressam a vocação de Adam. Ele deve deixar-se guiar (lamed) do he para o iud, para levar todo o cosmos do he ao iud. O Adam é chamado como uma mãe a parir-se, a dar a luz a si mesmo22, continuamente, sucessivamente, de terra em terra, de adamá em adamá, de águas em águas, como na história do povo de Israel. O dalet, no coração de Adam (alef-dalet-mem), é o símbolo das portas (delet, em hebraico) pelas quais o homem deve passar para realizar-se, até o último lugar (maqom – mem-quf-iud-mem), a terra derradeira, Deus.

Em Adam, o Homem é um ser feito de vapor (ed) (alef-dalet), um dos estados das águas, e desejo. O Humano é também uma outra realidade líquida, um Homem de sangue (dam – dalet-mem). Esse sangue, unindo desejo e necessidade, os mistérios cristãos apresentam numa progressão simbólica das águas ao Espírito (1Jo 5,8). O sangue, essa vida líquida, em hebraico, é a base e a raiz de várias palavras: demut (dalet-mem-vav-tav), a semelhança (Gn 1,26), vocação final do Homem pelo mistério do seu sangue; dami (dalet-mem-iud), a porta (dalet) do mi (mem-iud), o silêncio, o calar, o repouso e a tranqüilidade de quem situa-se ou chega a outro patamar nesta existência23. O valor numérico de mi (mem-iud) é 50 (40+10) e evoca na cabalá a entrada na outra dimensão, o número seguinte da realização, da plenitude do 49 (7x7).

Deus criava a partir do quê? De que ma? De que origem? De que procedência, de qual mi? Do nada? Uma dimensão que não era ou onde não estava Deus? Então, ele não estaria em toda parte, não seria tudo, o que seria um absurdo. Na outra hipótese, Ele criaria a partir de algo já existente, e nesse caso seria mais modelagem, do que criação. A cabalá tem uma intuição interessante sobre essa aparente contradição, sobre a qual tantos teólogos já se debruçaram: o tzimtzum, a contração. Deus estava em tudo e era tudo, o Absoluto. No momento da criação, Ele se contraiu. Para dar espaço à criação, para dar espaço ao outro, como na relação amorosa, Ele se retira, se contrai. Para os místicos cristãos, essa contração paradoxal irá até o ponto de caber num útero, numa matriz materna, através do mistério da encarnação (kenose).

A raiz mi expressa o mundo divino, as águas de cima, que contraíram-se numa totalidade, num todo, num tudo, kol em hebraico, também de valor 50 (caf-lamed = 20+30). O mundo do mi é o mundo dos arquétipos e das realidade escatológicas. É o valor jubiloso da letra nun24, da entrada em outras dimensões, da passagem das sete semanas após Pessah, páscoa, e das celebrações de Shavuot, da festa das semanas e também do jubileu festejado a cada 50 anos. No sexto dia da criação, o primeiro Adam, o Adão, Hadam (he-alef-dalet-mem) também corresponde a energia do 50 (5+1+4+40).

 


1 Doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite (mir@cnpm.embrapa.br).

21 Confere Anexo 1.

22 Ver capítulo sobre os significado do útero no texto bíblico em Evaristo E. de Miranda, Corpo. Território do Sagrado. Loyola, São Paulo, 2000.

23 Dentre muitas palavras hebraicas, em dumah (dalet-mem-he), tem-se a porta (dalet) do ma (mem-he), a calma, a tranqüilidade e no limite, a simulação (demé) de um túmulo; em damah, tem-se o verbo parecer, assemelhar-se; em dema (dalet-mem-ain), tem-se a palavra lágrima, o sangue (dalet-mem) do olho (ain).

24 Os nomes de Noé e Jonas, estão estruturados entorno da letra nun. Noé, Noa (nun-het) na arca é como Jonas no ventre do grande peixe. Seu nome invertido, hen (het-nun) significa a graça, a misericórdia. Dessa raiz deriva o nome Ana, Hanah, aquela que obteve graça diante de D-us. Da mesma raiz vem o verbo nahah, conduzir (nun-het-he) e oferenda minhah (mem-nun-het-he), aquilo que é conduzido. A oferenda é a recondução do mundo do ma ou de uma parte ou partícula desse mundo ao do mi. Una recondução.

 


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MIRANDA, E. E. de. Água na natureza, na vida e no coração dos homens. Campinas, 2004. Disponível em: <http://www.aguas.cnpm.embrapa.br>. Acesso em: 02 abr. 2004

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Atualizado em 17/02/2004