Água na natureza, na vida e no coração dos homens

Na tradição judaica

Um firmamento de águas

Evaristo Eduardo de Miranda1

 

O crepúsculo é sempre uma passagem, entre luz e trevas. É um lugar adequado ao humano. Os místicos sabem: para os não preparados, a luz total cega tanto quanto as trevas totais. Como a falta absoluta de água ou sua abundância, capazes de matar por sede ou afogamento. Na origem, Deus foi instaurando suavemente uma certa temporalidade.

Um pouco assustada, a criação foi deixando as dimensões da eternidade, para cair no tempo e no espaço. Os dias dos hebreus começaram a ser contados a partir do entardecer. Essa tradição é seguida até hoje no calendário judaico e na liturgia judaica e católica. Os dias são designados no texto do Gênesis como segundo, terceiro, quarto etc. O dia da criação da luz foi chamado dia um e não dia primeiro, como abusadamente escrevem alguns tradutores. Segundo a mística judaica, o Divino era único em seu mundo e os anjos só foram criados no segundo dia. Dia um, último dia uno.

No dia segundo, no dia do dois, em sua obra de dualidade, o Divino separa as águas com um firmamento, com uma lâmina, raqia (resh-kuf-iud-ain), uma camada sólida e firme entre as águas, no centro das águas. Através dessa operação de extensão, terminam separadas as águas de cima e as de baixo, o firmamento "represando" as primeiras. Segundo Rashi, há uma distância, um espaço, entre as águas superiores e o firmamento, bem como entre o firmamento e as águas sobre a terra. Ou seja: as águas estão suspensas pela ordem, pela palavra do Rei25. Ele criou um face a face entre as águas, entre elas e o firmamento, um vis-à-vis aquático.

O firmamento, traduzido pelos LVXX26 na Septuaginta por stereoma, significava suporte, matéria firme, de onde a genialidade de São Jerônimo ao adotar na Vulgata27 essa palavra para traduzir raqia. Com o tempo, pelo latim eclesiástico, firmamentum, essa palavra adquiriu o sentido de abóboda celeste. Não era o sentido original desejado por São Jerônimo, nem pelo texto hebraico, como sinaliza André Chouraqui28.

Ao contrário do que pensam os astronautas, os céus bíblicos são úmidos e cheios de águas. Em hebraico, a palavra céus, shamaim, pode ser decomposta em: sham + maim. Textualmente, significa: lá (sham) tem águas (maim). Os céus são as águas superiores, conforme o relato do Gênesis 1,6-7. "Deus disse: ‘Que haja um firmamento (um teto) e que ele separe as águas das águas!’ Deus fez o firmamento (o teto) e separou as águas inferiores do firmamento das águas superiores". Ele separa as águas sob e sobre o teto. A esse teto, chamará céus (Gn 1,8).

A terra firme e seca, como o firmamento, imagem do consciente, também emerge do meio das águas de baixo, imagem do inconsciente. Seco e úmido, consciente e inconsciente, duas dimensões a serem harmonizadas. É através de uma operação de concentração, do alinhamento das águas de baixo, sob os céus, em um único ponto, que o seco se faz visível, uma imensa pangea (Gn 1,9). O alinhamento das águas, o Divino chamará mares e o seco, terra. Elohim diz: "A terra arrelvará de relva, ervas semeando sementes, árvore-fruto produzindo fruto por sua espécie, cuja semente traz em si sobre a terra". E é assim (Gn 1,11). A terra e o ar estão entre duas grandes massas de águas. Quando Deus decide escancarar as aberturas, as lucarnas dos céus, os reservatórios do grande abismo despejam sua água aniquiladora sobre a terra. Foi assim no dilúvio, mabul, (mem-beit-vav-lamed) (Gn 7,11).

Da operação de extensão e de concentração do relato da criação surgem quatro elementos: águas superiores, céus, terra e águas inferiores ou mares. As águas são a imagem da indiferenciação primordial. Para a tradição judaica, a emergência da consciência exige extensão, separação e concentração das águas, do inconsciente. O homem desperto e geocêntrico é um retrato da emergência do seco, iluminado pela luz celeste, pela energia dos céus.

 

 

1 Doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite (mir@cnpm.embrapa.br).

25 Chumash, com comentários de Rashi. Trejger, São Paulo, 1993.

26 Tradução em grego da Torá, ocorrida no final do século III antes da era cristã para atender à comunidade judaica de língua grega, principalmente de Alexandria. Septuaginta porque segundo a tradição lendária foram 72 estudiosos (6 de cada tribo de Israel) que traduziram a Torá para o rei Ptolomeu III Filadelfos.

27 Do latim vulgatus, divulgado. Tradução latina da Bíblia feita por Jerônimo, que estudou hebraico com rabinos na Palestina. Foi concluída por volta de 405.

28 André Chouraqui. A Bíblia. Imago. Rio de Janeiro. 1996.


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MIRANDA, E. E. de. Água na natureza, na vida e no coração dos homens. Campinas, 2004. Disponível em: <http://www.aguas.cnpm.embrapa.br>. Acesso em: 02 abr. 2004

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Atualizado em 17/02/2004