Água na natureza, na vida e no coração dos homens

Na Vida

Anchieta e as Águas1

Evaristo Eduardo de Miranda2

 

A aventura do padre José de Anchieta com as águas começou cedo, logo com o seu nome. Em basco, Antxieta significa charcho, área inundada, pântano. E foi sobre as águas, numa caravela, que Anchieta veio ao Brasil, muito enfermo, com 19 anos. Ele sofria de um tipo tuberculose óssea. Milagre hídrico: as águas e os ares do Brasil, com a graça de Deus, o curaram por completo.

Anchieta chegou na comitiva de D. Duarte da Costa, segundo Governador Geral do Brasil3. No ano de 1554, junto com o padre Manuel da Nóbrega, ele ajudou a fundar, em 25 de janeiro, o terceiro colégio jesuíta do Brasil, em Piratininga, um nome tupi e aquático. Vem do tupi pi'ra "peixe" e (mo)tininga, gerúndio de "secar", de onde "peixe secando ou seca peixe". Segundo Anchieta, por efeito de trasbordamentos, o rio Tamanduateí deitava fora peixes, em suas lagoas marginais e os deixava em seco, expostos ao sol.

O colégio e a aldeia de Piratininga foram sabiamente localizados nas proximidades da confluência de dois rios, o Tietê e o Tamanduateí, mas fora de suas áreas de inundação. Quem vinha de barco pelo Tietê, entrava no Tamanduateí, até o atual Parque D. Pedro e chegava num pequeno porto, próximo ao final da ladeira Porto Geral, aos pés da colina do Pátio do Colégio. As águas os beneficiavam e não os prejudicavam. Esse cuidado e respeito com a topografia e as águas vai durar séculos.

Os jesuítas consideravam em suas aldeias o abastecimento em água, o clima e a influência dos ventos e das chuvas. Essa será uma das características do urbanismo português: cidades planejadas, considerando a situação de cada local. Respeitar a topografia, acomodar-se ao meio ambiente, explorar suas qualidades para a vida urbana. Casas, edifícios, ruas inteiras e até bairros, estabelecidos nos séculos XVI, XVII e XVIII, mantém-se até hoje. Não desabam com as chuvas de verão. E isso em áreas de encosta, em declives acentuados. Seus códigos de obras eram detalhados e impressionam por sua atualidade e preocupações com a sanidade pública e o escoamento das águas.

Casas e arruamentos resistiram por séculos ao sol e, sobretudo, à chuva e às enxurradas. Muitos desses edifícios antigos permanecem estáveis, sem rachaduras. São considerados patrimônios culturais da humanidade. Só não conseguem resistir à modernização caótica das cidades, à especulação fundiária, à ausência de zoneamento adequados, à circulação de veículos pesados às suas portas, aos repetidos choques de caminhões contra chafarizes e ao desrespeito ao patrimônio histórico, uma das marcas do século XX.4

Anchieta construiu também um seminário de orientação perto do colégio e deu aulas de castelhano, português, latim, doutrina cristã e a língua brasílica. Foi um construtor de homens. Aprendeu o idioma tupi com muita facilidade. Escreveu livros em tupi e uma gramática, a primeira da língua tupi. Serviu de intérprete e terminou como refém dos índios tamoios, aliados dos franceses e em guerra contra os portugueses em 1567. Nessa época, junto às águas, embalado pelo som das ondas do mar, Anchieta escreveu nas areias da praia, e memorizou, um extenso poema dedicado à Virgem Maria.

Para os índios, Anchieta era médico e sacerdote, cuidava tanto das pessoas doentes ou feridas, como de sua espiritualidade. Anchieta recebeu um excelente preparo na Universidade de Coimbra e um conhecimento elevado do saber e da cultura da Europa de seu tempo. Na sua catequese utilizava o teatro e a poesia, e é considerado, por seu trabalho de inculturação do cristianismo, catequético e humanista, o Apóstolo do Brasil. Foi o autor dos primeiros relatos circunstanciados sobre as águas, a flora e a fauna do Brasil5

O padre Anchieta fundava escolas mas considerava-se, com humildade, na escola dos índios em termos de conhecimento da natureza. Para os jesuítas, não havia necessidade dos portugueses inventarem nomes para todos os animais, plantas, lagos, córregos e rios do Brasil. Eles já estavam nomeados pelos índios. O esforço dos jesuítas será de trazer para o português esse tesouro lingüístico. As águas do Brasil tinham nomes e Anchieta, bem como outros jesuítas, caminharam ao seu encontro.

Para os povoadores europeus, absorver esses nomes locais não era um caminho natural. Era uma via cheia de perigos e armadilhas. Eles iam encontrar vários obstáculos de compreensão e tradução das águas brasílicas e podiam afogar-se entre igarapés, igapós, paranás, ipueras e tantas designações hídricas do tupi. Em sua viagem de um dialeto tupi até o português, o nome de um rio podia perder-se nos grotões da vocalização, assumir uma inflexão imprevista ao passar um desfiladeiro e aparecer do outro lado do vale, tendo perdido parte de suas intonações e correntezas, diminuído em sua vazão e virando um lago ou um córrego murmurante. Alguns corpos d’água ficaram irreconhecíveis na fala dos povoadores europeus. Para os jesuítas nenhuma palavra indígena deveria perder-se em seu caminho rumo ao português.

Para construir essa arca, a língua geral, os jesuítas estabeleceram regras e caminhos de transformações fonéticas e encaixaram todas essas mudanças gramaticais como hábeis carpinteiros, seguindo normas seguras e replicáveis para que, com poucas alterações, o termo indígena fosse incorporado ao português. Sem sustos, nem tempestades, secas ou inundações. Numa carinhosa aproximação inter-étnica e humana, pela via da natureza. Como um canoa navegando um paranã de águas rápidas na Amazônia. Como na saga de Noé, a maioria dos nomes indígenas de animais, vegetais e de acidentes geográficos e hidrográficos puderam encontrar seu lugar no português do Brasil e serem acomodados nessa imensa e generosa arca lingüística, segura e bem calafetada.

Os nomes indígenas das águas e da natureza, pela primeira vez, saíram do tempo Neolítico e foram acolhidos nos campos da escrita nos textos de Anchieta. Essa arca de palavras navegou em paranás, paranãs, piratiningas e paranás-mirins. Logo passou a singrar as águas do Paraná, do Paranapanema, do Tietê, do Paraíba, do Parnaíba, do Paraguai, do Iguaçu, do Tamanduateí, do Atibaia, do Piracicaba, do Camanducaia, do Mogi, do Tatuí, do Jaguari, do Pacaembu... consagrando o tupi em tantos outros rios e águas brasileiras. O imbuguassu, o grande imbú, é uma localidade vizinha de São Paulo. Ipojuca, o brejo, o alagadiço, é nome de bairro na capital paulista e de várias localidades, Brasil afora. Itapecerica, evoca a pedra molhada e escorregadia, característica da umidade da Mata Atlântica. Barueri ou bariri, além de nome de cidade, evoca o local encachoeirado, a corredeira.

Os nomes indígenas qualificam perfeitamente os rios brasileiros. Ipanema significa água ruim, rio sem peixes. Está presente misteriosamente em Paranapanema, rio de água ruim, sem peixes. Iperuíbe ou Peruíbe evoca o rio do tubarão (iperu, tubarão, ig, água). Iporanga é nome de município e significa rio bonito. Ipiúna, água preta, rio preto; ipiranga, rio vermelho; juqueri, rio salgado, salobro; paranapuitã, rio pardo; paraopeba, rio de água rasa; catuí, rio de água boa; ijuí, rio das espumas; itinga, rio branco e, ironicamente, a localidade de Utinga, no ABC paulista, de tão poluídas águas.

Quem foi beber água no Itororó e não achou, como na cantiga infantil, deve consolar-se com a bela morena pois a urbanização paulistana soterrou o riacho Itororó. Seu nome evocava o rio rumoroso, o jorro barulhento de água, como em chororó. Itaca tem o mesmo significado: rio marulhoso, ruidoso. Ipitá é o rio perene, aquele que nunca seca. Irecê, nome de município e de muita muié dama na Bahia, significa à tona, à mercê da corrente. O Itamaraty evoca um dos mais prestigiosos ministérios do país, o das Relações Exteriores, mas seu significado é água entre pedras claras. A expressão inspirou o belíssimo, claro e flutuante palácio ministerial em Brasília6.

Os jesuítas fizeram do português uma imensa arca de Noé, onde a grande maioria dos nomes indígenas dos rios, lagos, riachos e arroios, córregos e regatos foram salvos no dilúvio da aculturação. Foi talvez sua maior grandeza com relação as águas. Pelas mãos de Anchieta, as águas e as palavras tupis batizaram índios e brancos, abençoaram a paz entre os homens e os seus trabalhos e deram um banho na língua portuguesa.


1 Edmundo Garcia et al. Água Esperança e Futuro! Edições Loyola, São Paulo, 2004.

2 Doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite.

3 O padre Anchieta nasceu na Ilha de Tenerife, nas Canárias, em 1534, e morreu em 1597 na aldeia de Reritiba no Espírito Santo. Hoje a cidade leva seu nome. Seu pai era basco, de um vilarejo próximo ao de Inácio de Loyola. Sua mãe de linhagem nobre. Fez seus estudos de teologia e filosofia em Coimbra.

4 Evaristo Eduardo de Miranda. O descobrimento da biodiversidade. Loyola. São Paulo. 2004.

5 Pe. José de Anchieta s.j. Cartas. Informações, fragmentos históricos e sermões. Itatiaia, Belo Horizonte, 1988.

6 Evaristo Eduardo de Miranda. A água na natureza e na vida dos Homens. Idéias & Letras. São Paulo. 2004.

 


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MIRANDA, E. E. de. Água na natureza, na vida e no coração dos homens. Campinas, 2004. Disponível em: <http://www.aguas.cnpm.embrapa.br>. Acesso em: 02 abr. 2004

 

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Atualizado em 17/02/2004