Água na natureza, na vida e no coração dos homens

Na Vida

Jesuítas e Águas Indígenas1

Evaristo Eduardo de Miranda1

 

Na perspectiva da inculturação do cristianismo, o padre Anchieta fundava escolas mas considerava-se, com humildade, na escola dos índios em termos de conhecimento da natureza. Para os jesuítas, não havia necessidade dos portugueses inventarem nomes para todos os animais, plantas, lagos e rios do Brasil. Eles já estavam nomeados pelos índios. O esforço dos jesuítas será de trazer para o português esse tesouro lingüístico, compatibilizando-o com as noções científicas daquele tempo, essencialmente de natureza aristotélica.

Para os povoadores europeus, absorver esses nomes locais não era um caminho natural. Era uma via cheia de perigos e armadilhas. Eles iam encontrar vários obstáculos de compreensão e tradução das águas brasílicas e podiam afogar-se entre igarapés, igapós, paranás, ipueras e tantas designações hídricas do tupi. Em sua viagem de um dialeto tupi até o português, o nome de um rio podia perder-se nos grotões da vocalização, assumir uma inflexão imprevista ao passar um desfiladeiro e aparecer do outro lado do vale, tendo perdido parte de suas intonações e correntezas, diminuído em sua vazão e virando um lago ou um córrego murmurante. Alguns corpos d’água ficaram irreconhecíveis na fala dos povoadores europeus. Para os jesuítas nenhuma palavra indígena deveria perder-se em seu caminho rumo ao português. Eles fizeram do português uma imensa arca de Noé, onde a grande maioria dos nomes indígenas dos rios, lagos, riachos e arroios, córregos e regatos foram salvos no dilúvio da aculturação. E mais, as águas das palavras tupi batizaram, deram um banho na língua portuguesa.

Para construir essa arca, a língua geral, os jesuítas estabeleceram, cortaram e pregaram regras como árvores, sugeriram e esculpiram caminhos de transformações fonéticas como tábuas e encaixaram todas essas mudanças gramaticais como hábeis carpinteiros, seguindo normas seguras e replicáveis para que, com poucas alterações, o termo indígena fosse incorporado ao português. Sem sustos, nem tempestades, secas ou inundações. Numa carinhosa aproximação inter-étnica e humana, pela via da natureza. Como um canoa navegando um paranã de águas rápidas na Amazônia. Como na saga de Noé, a maioria dos nomes indígenas de animais, vegetais e de acidentes geográficos e hidrográficos puderam encontrar seu lugar no português do Brasil e serem acomodados, com toda sua sacralidade, nessa imensa e generosa arca lingüística, segura e bem calafetada.

Os nomes indígenas da natureza, pela primeira vez, saíram do tempo Neolítico e foram acolhidos nos campos da escrita. Essa arca de palavras navegou em paranás, paranãs, piratiningas e paranás-mirins. Logo passou a singrar as águas do Paraná, do Paranapanema, do Tietê, do Paraíba, do Parnaíba, do Paraguai, do Iguaçu, do Mucajaí, do Xingu, do Tamanduateí, do Atibaia, do Piracicaba, do Camanducaia, do Mogi, do Tatuí, do Iriri, do Juruena, do Jaguari, do Tocantins e de tantos outros rios e águas brasileiras.

Alguém poderia imaginar que, naturalmente, os portugueses e seus descendentes mestiçados, em geral filhos de índias, absorveriam os termos tupis para designar todos animais da terra. Não foi tão simples. O tupi não era uma língua escrita. Traduzir seus sons para o português ou para o latim, era uma dificuldade. As regras gramaticais do tupi são completamente diferentes do português. Nem era a única língua do Brasil.

Na realidade, haviam muitas línguas e dialetos indígenas vinculados aos dois grandes troncos - Tupi e Macro-Jê. Ainda hoje considera-se a existência de 19 famílias lingüísticas indígenas não passíveis de serem agrupadas em troncos2. Esse ecumenismo lingüístico, praticado e incentivado pelos jesuítas, vai ter sua grande expressão na formação do nheengatu3, a "língua geral", consolidada como a verdadeira língua do Brasil durante séculos e ainda falada na Amazônia.

O início do povoamento territorial do Brasil foi realizado, predominantemente, por homens desacompanhados de mulheres, buscando esposas no Brasil. Eles entraram em contato com um povo indígena numeroso e socialmente aberto ao estabelecimento de alianças matrimoniais com os forasteiros. Esse fenômeno de miscigenação, tipicamente lusitano, é único se comparado às políticas e práticas de colonização e povoamento de outras potências européias como os franceses, espanhóis, ingleses, holandeses etc. Os jesuítas e a Igreja em geral, incentivaram esses matrimônios.

A população do Brasil foi progressivamente formada, em grande parte, por mamelucos, frutos das águas uterinas, filhos de portugueses com índias tupi e de outros grupos. No final do século XVI, essa miscigenação genética, lingüística e intercultural já era dominante na população brasileira. Ela vai fascinar os norte europeus recém-chegados ao Brasil. Vai ser tema de muitos artistas, como os belos mestiços e mamelucos retratados pelo pintor flamengo Albert Eckhout, em 1644. Estudos recentes de genealogia genética confirmam a importância dessa linhagem indígena materna, via ADN mitocondrial, no sangue da maioria dos brasileiros.

A expressão língua geral, tanto em São Paulo, como no Maranhão e Pará, passou a designar as línguas de origem indígena, transformadas e faladas nas respectivas províncias, por toda a população originada do cruzamento de europeus e índios tupi (tupis em São Paulo e tupinambás no Maranhão e Pará), à qual foi-se agregando um contingente de origem africana. Em tupi, o substantivo água é diminuto, apesar de sua abundância na terra brasilis. Água resume-se a uma letra: i (ig). A expressão água verdadeira, água de fato, é ieté. Água doce é icem. Água boa é icatu. Água benta ou água santa é icaraí, palavra muito pronunciada por ibarés4 jesuítas. Hoje designa bairros e localidades, sobretudo no Estado do Rio de Janeiro. E icanga ou iacanga designa a nascente, a cabeceira ou o início de um rio. O termo entra na composição de muitos topônimos brasileiros. O limo dos rios é chamado carinhosamente de cabelo d’água: igaba5.

Igara designa a canoa e dela derivam muitos nomes, de muitas cidades e logradouros, como Igaraçú, bela e antiga vila pernambucana, sinônimo de canoa grande. Ou ainda, Igarapava: ancoradouro de canoas, bem como Igaratá, canoa forte ou resistente (palavra aplicada aos navios), igarari, rio das canoas, e outras tantas. Iguá é outro tesouro da língua indígena. Evoca a bacia fluvial, a enseada (i, água, guá, enseada, bacia, rio amplo), como em Iguatinga, baía branca e iguaba, bebedouro da baía. Nomeia municípios e cidades como Iguape (textualmente, na enseada) e Iguaçu (rio grande).

Itu, salto, cachoeira ou cascata, é o nome do município onde encontra-se o salto do Tietê. Falar de Salto de Itu é mesmo tautológico. Itutinga é o salto branco, a branca cachoeira, enquanto ituzaingó, localidade do Rio Grande do Sul, designa o salto a pique, vertical, como a cachoeira do Caracol, em Gramado. Itupeva, cachoeira baixa ou de pouca altura, é também nome de município. Ituporanga evoca o salto rumoroso e estrondejante. Itumirim e Ituassú são opostos. Itupiranga é a cachoeira vermelha; Itupu, o salto estrondoso e Ituverava, a cachoeira brilhante.

Graças ao tupi, as águas passaram a viver no meio dos urbanos, evocando um paraíso de rios e regatos perdidos, hoje canalizados, poluídos, mortos e sub-enterrados. Iguatemi pode ser para muitos sinônimo de compras, consumo ou nome de rua, mas significa "rio verde escuro". Guareí é nome de rua paulistana, de cidade, contudo evoca "rio das antas". Bem raras nesse município e raríssimas nessa rua do bairro da Moóca. Ivaí, nome de ruas e cidades, traduz o rio das frutas. Já Itajuí, é o rio do ouro (itayuba-í). Itaim significa pedregulho, aquele rolado pelo rio. O seixo. Além do bairro, dos pequenos seixos, do Itaim-mirim e do balanço do Itaim-bibi. Itaipu, além da imensa hidroelétrica, designa de forma circunstanciada, a fonte da pedra, a água saindo entre as pedras, além de várias localidades. A palavra imbu evoca o que dá de beber e também uma árvore (Spondias tuberosa) cujas raízes matam a sede dos viajantes no Nordeste. O imbuguassu, o grande imbú, é uma localidade vizinha de São Paulo. Ipojuca, o brejo, o alagadiço, é nome de bairro na capital paulista e de várias localidades, Brasil afora. Itapecerica, evoca a pedra molhada e escorregadia, característica da umidade da Mata Atlântica. Barueri ou bariri, além de nome de cidade, evoca o local encachoeirado, a corredeira.

Os nomes indígenas qualificam perfeitamente os rios brasileiros. Ipanema significa água ruim, rio sem peixes, além de evocar a praia famosa da garota e da música. Está presente misteriosamente em Paranapanema, rio de água ruim, sem peixes, apesar de suas boas águas piscosas. Iperuíbe ou Peruíbe evoca o rio do tubarão (iperu, tubarão, ig, água). Iporanga é nome de município e significa rio bonito. E é mesmo. Ipiúna, água preta, rio preto; ipiranga, rio vermelho; juqueri, rio salgado, salobro; paranapuitã, rio pardo; paraopeba, rio de água rasa; catuí, rio de água boa; ijuí, rio das espumas; itinga, rio branco e, ironicamente, a localidade de Utinga, no ABC paulista, de tão poluídas águas.

Quem foi beber água no Itororó e não achou, como na cantiga infantil, deve consolar-se com a bela morena pois a urbanização paulistana soterrou o riacho Itororó. Seu nome evocava o rio rumoroso, o jorro barulhento de água, como em chororó. Itaca tem o mesmo significado: rio marulhoso, ruidoso. Ipitá é o rio perene, aquele que nunca seca. Irecê, nome de município e de muita muié dama na Bahia, significa à tona, à mercê da corrente. O Itamaraty evoca um dos mais prestigiosos ministérios do país, o das Relações Exteriores, mas seu significado é água entre pedras claras. A expressão inspirou o belíssimo, claro e flutuante palácio ministerial em Brasília.

O sufixo í ou y, no final de substantivos, designa normalmente o rio de alguma coisa: animais, plantas, homens... Essas palavras seguem nomeando rios e aguadas. Também preservam a memória hídrica, de rios e riachos desaparecidos nos nomes de bairros, cidades, municípios e até Estados do Brasil. Na imensa rede hidrográfica brasileira, os nomes indígenas prevalecem. Basta seguí-los alfabeticamente, esquecendo muitos, mas citando os mais conhecidas como em Acaraí, rio dos acarás; Andaraí, rio dos morcegos; Anhembi, rio dos nambús; Apiaí, rio dos meninos; Araguari, rio das araras; Araçarí, rio dos tucanos; Arapeí, rio das baratas; Avaí, rio do homem; Capivari, rio das capivaras, Carandaí, rio das palmeiras; Chuí, rio dos chuís, dos pintassilgos; Corumbataí, rio dos corumbatás ou corimbatás; Gravataí, rio dos gravatás; Guaçuí, rio dos veados; Guajaí, rio dos caranguejos; Guapeí, rio dos aguapés; Guaraí, rio das garças; Guarassuí, rio das garças grandes; Guaraí, rio dos macacos; Guareí, rio das antas; Ibatubi, rio do pomar; Inhambuí, rio das perdizes, das inhambús; Ijí, rio das rãs; Iraí, rio do mel; Ivaí, rio das frutas; Jacareí, rio dos jacarés; Jacuí, rio dos jacus; Jaguari, rio dos jaguares; Jaguariúna, rio dos jaguares negros; Jiquitaí, rio das formigas; Jundiaí, o rio dos jundiás ou bagres; Mucurí, rio dos gambás; Pacuí, rio dos pacús; Paratií, rio das tainhas; Piauí, rio dos piaus; Piraí, rio do peixe; Pirajuí, rio do peixe dourado; Pium-í, rio dos piuns; Quiri, rio da chuva; Saboí, rio do sapo; Sapucaí, rio das sapucaias; Sararaí, rio das mariposas; Sassuí, rio dos beija flores; Sururuí, rio dos sururus; Siriri, rio dos siris; Tabaji, rio da taba; Tamanduateí, rio dos tamanduás (ou que faz muitas voltas); Tapiraí, rio das antas; Tatuí, rio dos tatús; Trairi, rio das traíras; Tucuruí ou tucuruvi, rio dos gafanhotos (verdes); Ybicuí, rio das areias e Urussuí, rio das abelhas6.

Desde o princípio do povoamento do Brasil esteve presente a visão cristã da sacralidade das águas e dos homens. A música da língua portuguesa ganhou diversas orquestrações em Angola, no Cabo Verde, no Timor, em Macau... e especialmente no Brasil. Aqui, no mar da língua portuguesa, águas de origem árabe, latina, africana e indígena fluíram como correntezas. Poucas línguas possuem a riqueza hídrica do português. As palavras encontraram-se, estranharam-se, entranharam-se e acumularam-se numa imensa diversidade de expressões aquáticas: lagos, impueiras, olhos-d'água, sacados, marumbis, pueras, tipiscas, caudais, correntes, flumes, grunados, torrentes, uádis, valões, córregos, dalas, estreitos, cabeceiras, chafarizes, lagoas, lagões, lagunas, ipueras, mães-d'água, manadeiras, arroios, inongabas, pauis, ribeiros, sangas, angusturas, olheiros, igarapés, apertados, bocas, fontes, bocainas, pântanos, açudes, barreiros, mares, poças, cacimbas, lodaçais, iaquãs, boqueirões, bósforos, regos, brechas, piracemas, represas, canhões, escaturigens, lacrimais, colatas, igapós, colos, sumidouros, nascentes, forcas, gargantas, orretas, passos, acéquias, bicas, brotas, mananciais, minas, minadores, minadouros, nasceiros, olhos, remansos, repuxos, têmporas, barragens, portas, ipueiras, portelas, quebradas, canais, paludes, marnéis, talvegues, levadas, regatos, manadeiros, corixos, riachos, ribeiras, trombas, ribeiradas, brejos, ribeirões, veias, veios, lagamares e xabocos.

 


1 Resumo extraído do livro do autor: " A água na natureza e na vida dos homens". Editora Santuário/Idéias & Letras. S. Paulo. 2004.

2 Ayron Dall’Igna Rodrigues, Línguas brasileiras – para o conhecimento das línguas indígenas. Loyola, São Paulo, 1986.

3 Língua de intermediação e comunicação, desenvolvida a partir do tupinambá, falada no vale amazônico brasileiro, no litoral e interior até a fronteira. O termo tem sua origem em ie’engatú = língua boa.

4 Padres, textualmente: homens diferentes.

5 O cântaro e a urna funerária têm o mesmo nome: igaçaba. E a ponte, a passagem sobre o rio, é a igaçapaba.

6 Francisco da Silveira Bueno. Vocabulário tupi-guarani português. Brasilivros. São Paulo. 1986.

 


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MIRANDA, E. E. de. Água na natureza, na vida e no coração dos homens. Campinas, 2004. Disponível em: <http://www.aguas.cnpm.embrapa.br>. Acesso em: 02 abr. 2004

 

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Atualizado em 17/02/2004